Ciência e medicina

Os filhos de Asperger

Os filhos de Asperger
  • editor: Marsílio
  • publicação: Julho 30 2020
  • páginas: 336 p., Brochura
  • ISBN / EAN: 9788829705245

Edith Sheffer, historiadora e investigadora do Instituto de Estudos Europeus da Universidade da Califórnia, utiliza a sua experiência pessoal como mãe de uma criança autista para explorar as raízes do diagnóstico de Asperger. Ao fazê-lo, oferece-nos uma perspectiva única que combina rigor académico e sensibilidade pessoal.

Viena e a psiquiatria nas décadas de 30 e 40

Viena, na época em que Hans Asperger desenvolvia as suas teorias, era um centro de inovação cultural e científica. No entanto, a cidade também era local de grandes tensões políticas e sociais. Após a Primeira Guerra Mundial, Viena enfrentou uma crise económica e uma crescente desigualdade social. O movimento eugênico ganhou terreno ao propor soluções “científicas” para melhorar a população.

Nesse contexto, a psiquiatria infantil tornou-se uma ferramenta de identificação e separação de crianças consideradas “problemáticas”. A pedagogia curativa de Asperger fazia parte de um sistema que visava conformar as crianças aos ideais nazistas de produtividade e conformidade social.

A Obra de Hans Asperger

Hans Asperger era conhecido por sua abordagem detalhada e personalizada no cuidado de crianças. Ele acreditava que muitas crianças, se devidamente orientadas, poderiam superar suas dificuldades e integrar-se à sociedade. Porém, sua classificação de “psicopatia autista” também foi utilizada para justificar a exclusão e eliminação daqueles que não se enquadravam em seus critérios de “recuperável”.

Asperger e seus colegas observaram crianças em ambientes controlados, observando cada detalhe do seu comportamento. Estes estudos serviram de base às suas decisões sobre quem poderia ser “salvo” e quem deveria ser transferido para Spiegelgrund, um campo de internamento para crianças com alegadas deficiências mentais. Este processo de seleção foi profundamente influenciado pela ideologia eugênica da época.

Colaboração com o regime nazista

Sheffer documenta como Asperger e seus colegas colaboraram ativamente com as autoridades nazistas. Embora Asperger não fosse membro do Partido Nazista, ele operava dentro de um sistema que visava purificar a raça ariana através da eliminação de indivíduos considerados inaptos. O seu papel na transferência das crianças para Spiegelgrund, onde muitas foram mortas, é uma mancha negra e indelével no seu legado.

Asperger justificou estas ações afirmando que as crianças com deficiências graves não poderiam ser integradas na sociedade e que a sua eliminação era necessária para o bem da comunidade. Contudo, estas justificações baseavam-se frequentemente em preconceitos e critérios arbitrários, reflectindo as realidades cruéis da psiquiatria.

Redescoberta e disseminação da síndrome de Asperger

Na década de 80, o diagnóstico de Asperger foi redescoberto pela psiquiatra britânica Lorna Wing, que o promoveu como uma categoria distinta dentro do espectro do autismo. Esta redescoberta levou a uma maior consciência e aceitação das diferenças neurodiversas, mas também levantou questões sobre as origens e implicações deste diagnóstico.

Sheffer destaca como a síndrome de Asperger, embora útil para muitos, tem raízes num período histórico marcado por ideologias opressivas. O diagnóstico refletia os valores e prioridades da sociedade nazista, que buscava conformar os indivíduos a um ideal de perfeição ariana.

Implicações Éticas e Morais

O livro de Sheffer levanta importantes questões éticas e morais relativas à cumplicidade dos médicos nas políticas genocidas do Terceiro Reich. A história de Asperger demonstra como os diagnósticos médicos podem ser usados ​​para justificar práticas desumanas e convida à reflexão crítica sobre como as teorias psiquiátricas são influenciadas pelas ideologias políticas e sociais do seu tempo.

Sheffer convida os leitores a considerar as implicações dos diagnósticos psiquiátricos modernos e a refletir sobre como estes podem ser moldados por forças externas à ciência. A história de Asperger é um alerta poderoso sobre a necessidade de examinar cuidadosamente as práticas médicas e considerar as suas implicações éticas e morais.

"Asperger's Children" de Edith Sheffer é uma obra fundamental para a compreensão das origens históricas do diagnóstico de autismo e das implicações éticas das práticas psiquiátricas. O livro destaca as contradições do trabalho de Hans Asperger e o contexto em que suas teorias se desenvolveram. Através de uma análise detalhada de documentos históricos, Sheffer levanta questões importantes sobre como os diagnósticos médicos podem ser influenciados por ideologias políticas e sociais.

A história de Asperger convida-nos a refletir criticamente sobre as origens das teorias psiquiátricas e o seu impacto na sociedade. Os diagnósticos, como demonstra Sheffer, não são neutros, mas são moldados pelos valores e crenças de sua época. Este livro é um alerta poderoso sobre a necessidade de examinar cuidadosamente as práticas médicas e considerar as suas implicações éticas e morais.

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